Ex-noiva de João Campos vai de Raquel Lyra, contra a própria federação – Análise

A uma semana do primeiro turno, João Campos (PSB) ganhou um problema que não aparece nas pesquisas. Lara Santana, candidata a deputada estadual pelo PV com o número 43456, publicou foto ao lado da governadora Raquel Lyra (PSD), as duas de mão erguida e camisa 55. No sábado (26), ela estava com Raquel no ato “Onda 55”, no Centro do Recife. Lara foi noiva de João.

O gesto não é apenas pessoal. O PV integra a Federação Brasil da Esperança, com PT e PCdoB, que homologou apoio a João para o Governo em julho. Uma candidata da base formal do socialista pede voto ao lado da adversária dele, numa disputa em que o Datafolha registrou Raquel com 48% e João com 44%, empate técnico. Lara não está sozinha. No dia da homologação, o presidente estadual do PV, Clodoaldo Magalhães, e deputados do partido aliados de Raquel deixaram o ato antes do anúncio.

Engenheira, Lara é filha do prefeito de Ipojuca, Carlos Santana (Republicanos), e da deputada estadual Simone Santana (PSB), do partido de João. Em 2024, Carlos teve o apoio de João na eleição municipal. Em 23 de agosto deste ano, recebeu Raquel para almoçar em casa, em Muro Alto, ao lado da mulher e da filha. No dia seguinte, oficializou apoio à reeleição da governadora, com Simone ao lado. Lara, que passou pela Secretaria de Projetos Especiais de Ipojuca, abriu a campanha com um adesivaço no município. A foto com Raquel só leva ao Recife uma escolha que a família já havia feito no Litoral Sul.

A história pessoal dá à cena outra voltagem. Lara e João namoraram por cerca de sete anos, ficaram noivos em novembro de 2018 e romperam em julho de 2019, com casamento marcado para novembro daquele ano, na casa dos pais dela em Muro Alto. Em abril de 2019, a Câmara havia criado a comissão externa para acompanhar o MEC, com Tabata Amaral na coordenação e João como vice-coordenador. Em maio e junho, antes do fim do noivado, os dois já trabalhavam lado a lado. Tabata contaria depois que foi nesse trabalho que se conheceram. João e Tabata se casaram em 21 de fevereiro de 2026, na Praia dos Carneiros.

Nas redes, a foto virou mote. Nos comentários e compartilhamentos, duas frases se repetem: “Lara deputada. João desempregado.” e “Mulher vota em mulher.” Eleitoras que se apresentam como apoiadoras de Raquel passaram a pedir voto também em Lara para a Alepe, amarrando as duas candidaturas numa mesma mensagem.

A segunda frase tem autor conhecido. Na sexta-feira (25), no Marco Zero, com João ao lado, Lula afirmou que “se as mulheres tiverem consciência e votarem em mulher, um dia a gente pode ter uma maioria congressual de mulheres e não de homens”. O presidente falava do Congresso, mas aliados de Raquel, única mulher na disputa, comemoraram. Um dia depois, a frase circulava a favor da ex-noiva do candidato que Lula foi ao Recife apoiar.

O “desempregado” é a ironia que mais incomoda. João deixou a Prefeitura do Recife para disputar o Governo. Se perder, sai da eleição sem mandato eletivo. Se Lara for eleita, estreia na Alepe no mesmo dia em que ele fica sem cargo.

A pauta cobra respostas de três lados. O PV e a federação precisam dizer se aceitam uma candidata sua no palanque adversário. A campanha de João precisa dizer como lê o gesto. E Lara precisa dizer, com todas as letras, em quem vota para governador.