Você vai ao supermercado, compra poucos produtos e a conta já passa dos cem reais. Para quem precisa equilibrar o orçamento, sobra menos dinheiro até o fim do mês, e até o gasto com o básico passa a vir acompanhado de culpa. A percepção do custo de vida pesa na avaliação da economia, especialmente em ano eleitoral. Mas o que os números oficiais mostram sobre esse aperto e por que o reflexo no bolso nem sempre acompanha a taxa divulgada?
Em setembro, o IPCA, índice oficial de inflação, subiu 0,82%, o maior avanço desde março. Com isso, o acumulado em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto da meta. Todos os grupos de produtos e serviços pesquisados registraram alta no período, com destaque para Habitação, Transportes e Alimentação. A maior pressão veio da energia elétrica, que encareceu 7,98% após o fim dos créditos do Bônus de Itaipu em agosto. Já os alimentos subiram 0,83%, movimento que, em geral, reflete fatores como safra, clima e câmbio.
A variação média dos preços não representa, porém, o impacto da inflação no orçamento das famílias. Embora o IPCA considere uma cesta de consumo, cada domicílio tem uma composição de gastos diferente. Assim, quem ganha menos costuma comprometer uma parcela maior da renda com custos básicos e difíceis de reduzir. Essa realidade é comum no país, onde 84% dos brasileiros recebem até cinco mil reais por mês, de acordo com dados do IBGE.
As altas são tão perceptíveis no cotidiano porque as contas domésticas fazem parte das despesas recorrentes. O consumidor sente quase que imediatamente quando o café, a gasolina ou a conta de luz ficam mais caros, visto que precisa lidar com esses valores várias vezes ao longo do mês. Por isso, ainda que o preço de outros produtos e serviços fiquem estáveis ou caiam, o encarecimento dos itens essenciais continua pesando no bolso.
Outro ponto é que existe distinção entre inflação menor e preço menores. Isso quer dizer que mesmo quando o IPCA desacelera, os preços continuam subindo, mas em ritmo mais lento. Uma redução da taxa não desfaz os aumentos acumulados, já que o produto que ficou mais caro não volta automaticamente ao preço antigo. Para as famílias, o alívio depende também da evolução da renda, pois, se os ganhos não acompanham o custo de vida, o poder de compra segue pressionado.
É nesse contexto que os preços ganham relevância na disputa eleitoral. A população pode não entender as origens que explicam a alta dos itens no supermercado, mas percebe quando o dinheiro compra menos. Isso não significa que a inflação determine o voto, pois fatores como emprego, renda, crédito e identificação política também influenciam a escolha. Ainda assim, a inflação ganha força nas eleições porque é sentida de forma imediata: o eleitor não precisa olhar um índice para saber que o custo de vida ficou mais alto, e é com essa percepção que avalia o governo e chega às urnas.
Por Tays Marina, Economista (UFPE), Especialização em Economia, Investimentos e Banking (USP), Consultora na Economize







