Cresci lendo Merquior, Mises, Friedman, Hayek e Roberto Campos. Foi com esses autores que compreendi que liberdade econômica e liberdade individual caminham juntas. E que nenhuma das duas sobrevive plenamente quando a política deixa de ser um espaço de ideias para se transformar em um exercício de devoção a líderes.
Em algum momento, o Brasil passou a confundir firmeza com extremismo, divergência com inimizade e liderança com culto à personalidade.
Como se defender princípios exigisse abrir mão do diálogo. Como se pensar diferente fosse suficiente para transformar alguém em inimigo.
A polarização brasileira ultrapassou o campo das divergências ideológicas e passou a influenciar a maneira como enxergamos pessoas, instituições e até mesmo o exercício da democracia.
O problema não está na existência de posições políticas distintas. Pelo contrário. Uma sociedade livre pressupõe o direito de discordar, questionar e defender diferentes projetos de país. O problema começa quando a fidelidade a uma liderança se torna mais importante do que os próprios princípios que deveriam orientar nossas escolhas.
E talvez esse seja um dos maiores desafios da política brasileira: recuperar a capacidade de discutir ideias sem transformar adversários em inimigos.
Acredito em um Brasil que valorize a liberdade, respeite os direitos individuais, tenha responsabilidade com o dinheiro público e compreenda que governar exige muito mais do que produzir discursos.
E, olhando para o cenário político brasileiro, vejo em três nomes, com trajetórias bastante distintas, possibilidades interessantes para esse debate.
Renan Santos representa a disposição de questionar estruturas partidárias tradicionais, disputar ideias e apresentar um projeto político que busca romper com a lógica estabelecida. Uma liderança que aposta na renovação política e na construção de uma alternativa para além dos grupos que tradicionalmente dominam o debate nacional.
Raquel Lyra, em Pernambuco, representa a experiência de quem precisa transformar decisões em gestão, enfrentar problemas estruturais e assumir o custo político de governar. Uma liderança que tem diante de si o desafio de demonstrar que resultados concretos podem falar mais alto do que discursos.
Tarcísio de Freitas, em São Paulo, representa uma visão de política orientada à capacidade administrativa, à infraestrutura e à eficiência da gestão pública. Sua trajetória reforça a importância de transformar propostas em entregas e de compreender que governar exige planejamento, responsabilidade e capacidade de execução.
Não são iguais. Não têm necessariamente as mesmas prioridades, os mesmos métodos ou as mesmas propostas.
E nem precisam ter.
Reconhecer qualidades em diferentes lideranças não significa concordar integralmente com nenhuma delas. Significa compreender que o debate público pode ser muito mais rico quando abandonamos a obrigação de escolher um lado para defender incondicionalmente.
A política não deveria exigir devoção. Deveria exigir responsabilidade, coerência e compromisso com princípios.
É possível reconhecer uma boa decisão de um governante sem se tornar seu apoiador. É possível criticar uma liderança com a qual temos afinidade ideológica sem abandonar nossas convicções. E é possível defender a liberdade sem exigir que todos pensem da mesma maneira.
O Brasil precisa amadurecer politicamente. E esse amadurecimento passa por compreender que instituições devem existir para proteger direitos, limitar o poder e garantir que nenhum indivíduo esteja acima das regras.
Mais importante do que encontrar um líder capaz de representar todas as nossas expectativas é construir uma sociedade em que a liberdade dos indivíduos não dependa da vontade de quem ocupa o poder.
Porque uma democracia saudável não se sustenta na unanimidade, mas na capacidade de conviver com as diferenças.
O extremo cansou. E talvez esteja na hora de voltarmos a discutir ideias, em vez de idolatrar pessoas.
Por Tati Salustiano é empresária, estrategista de comunicação política e fundadora da Agência Newcom. Há oito anos atua na comunicação de campanhas eleitorais, mandatos e gestões públicas. Em 2026, participou de estratégias de comunicação política em Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte.








