A entrega do Hospital da Criança no Recife, que deveria ser um marco técnico de gestão, foi ofuscada por uma ostensiva exibição de propaganda eleitoral antecipada. O cartaz em destaque, estampando o nome de Wilton Brito com o slogan “O povo de Pernambuco te espera”, evidencia uma estratégia de marketing político que ignora a impessoalidade exigida pela administração pública. Ao permitir que um ato institucional de tamanha relevância se torne cenário para promoção de aliados, o prefeito encerra seu mandato flertando perigosamente com o abuso de poder político, transformando um benefício social em moeda de troca eleitoral.
A legislação é clara ao proibir que recursos e eventos públicos sirvam de vitrine para pré-candidatos, mas o que se viu foi a “privatização” de um espaço público para fins partidários. A presença de banners gigantescos e militância organizada em uma inauguração financiada com o dinheiro do contribuinte fere o princípio da isonomia, desequilibrando o jogo democrático antes mesmo do início oficial da campanha. Essa “estratégia do fato consumado” tenta normalizar a ocupação das ruas por nomes que ainda nem podem, por lei, pedir votos abertamente.
Ao se despedir do cargo com um evento de caráter tão explicitamente eleitoreiro, a gestão deixa um legado ambíguo: por um lado, a obra física; por outro, o desrespeito às normas éticas que regem o período pré-eleitoral. O uso da máquina pública como trampolim político no Recife agora fica sob o escrutínio do Ministério Público Eleitoral. Resta saber se o Judiciário agirá com o rigor necessário para impedir que inaugurações de hospitais continuem sendo usadas como ensaios de convenções partidárias, às custas da clareza democrática.








